Penso Sinto e Soul


Se apresentar ao mundo também é um gesto de pensamento. Para quem trabalha com moda e imagem, vestir-se nunca foi apenas escolher uma roupa: é elaborar uma linguagem. Estudamos comportamento, consumo, história, arte, cultura e tudo aquilo que transforma um objeto em narrativa e uma aparência em discurso.

Há um filósofo ao qual sempre retorno: Gilles Lipovetsky, em O Império do Efêmero. Uma das maiores contribuições da obra é nos lembrar que a moda jamais ocupou um lugar secundário na cultura. Ela não é um desvio da inteligência, mas uma das formas mais sofisticadas de compreender a modernidade. Ao aprender a desejar o novo, aprendemos também a conviver com a mudança, com a impermanência e com a liberdade de escolher quem somos.

Lipovetsky mostra que a moda substituiu a lógica da imposição pela da sedução. Em vez de determinar identidades rígidas, ela abre espaço para a experimentação. O efêmero, então, deixa de significar superficialidade e passa a revelar uma característica profundamente humana: a capacidade de nos reinventarmos sem abandonar aquilo que nos constitui.

Talvez por isso eu nunca tenha acreditado que criar roupas seja apenas produzir objetos de consumo. Há sempre uma tentativa de materializar ideias, afetos e memórias. A criatividade, quando atravessa as mãos, transforma tecido em linguagem e faz da estética uma experiência cultural. A moda encontra a arte justamente quando deixa de responder apenas ao mercado e passa a dialogar com a sensibilidade.

É nesse lugar que existo. Entre livros, fotografias, processos criativos e tantos devaneios, nasceu a Vangá. São quatorze anos transformando ideias em matéria, e trinta e nove anos aprendendo que identidade não é um ponto de chegada, mas uma obra em permanente construção. Quanto mais compreendo o mundo, mais descubro que criar é, antes de tudo, um exercício de escuta, delicadeza e coragem.

A vida segue sendo generosa comigo, e eu sigo escolhendo aprender. Porque, se a moda celebra a beleza das transformações, talvez envelhecer seja sua forma mais elegante de arte. E hoje, enquanto a Vangá completa mais um ciclo e eu celebro mais um ano de existência, percebo que ambas as datas compartilham o mesmo significado: continuar criando, com ternura, amor e a curiosidade de quem ainda acredita que o futuro também pode ser vestido. ❤️💃🏼





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