O lugar onde posso ser
Meu lugar no mundo é exatamente onde meu coração bate forte.
Não é um endereço fixo, nem uma geografia estável — é um estado de presença. É o instante em que a vida pulsa sem pedir licença, quando a cidade se dissolve em chuva e eu me reconheço inteira dentro do caos.
É ali, sob o céu, desabando em gotas insistentes, que descubro que pertenço.
Não ao concreto, não aos prédios, não ao trânsito, mas ao sentimento que me atravessa. Ao riso que escapa exagerado, quase infantil, como quem desafia a sobriedade do mundo adulto. Rir alto, sorrir demais, sentir intensamente: eis a minha forma de resistência.
Há algo de profundamente simbólico na chuva. Ela embaça as superfícies, distorce os contornos, transforma o ordinário em pintura viva. O vidro molhado vira filtro, véu e lente sensível. Nada é totalmente nítido e, paradoxalmente, tudo é mais verdadeiro. Porque viver não é sobre clareza absoluta; é sobre sentir apesar da névoa.
Meu lugar é onde posso ser sem reduzir a intensidade. Onde não preciso diminuir o brilho para caber. Onde o excesso não é erro, é assinatura.
Entre guarda-chuvas que colorem o cinza e passos apressados que cruzam a cidade, existe um microcosmo íntimo: o instante em que escolho permanecer inteira. A água cai, mas não apaga. Ao contrário, revela. Lava as máscaras invisíveis que usamos para sobreviver e deixa à mostra aquilo que é essencial.
Pertencer, para mim, não é estar seca sob abrigo permanente. É dançar na borda da tempestade com o coração aberto. É aceitar que a vida escorre, molha, bagunça, e ainda assim sorrir com os olhos brilhando. Meu lugar no mundo é onde minha alegria não pede desculpas.
Onde o riso ecoa mesmo quando o céu pesa. Onde a intensidade não assusta, floresce. E se me perguntarem onde fica esse lugar, direi: fica exatamente no espaço entre a coragem de sentir e a liberdade de existir.










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