O lugar onde posso ser
Meu lugar no mundo é exatamente onde meu coração bate forte. Não é um endereço fixo, nem uma geografia estável — é um estado de presença. É o instante em que a vida pulsa sem pedir licença, quando a cidade se dissolve em chuva e eu me reconheço inteira dentro do caos. É ali, sob o céu, desabando em gotas insistentes, que descubro que pertenço. Não ao concreto, não aos prédios, não ao trânsito, mas ao sentimento que me atravessa. Ao riso que escapa exagerado, quase infantil, como quem desafia a sobriedade do mundo adulto. Rir alto, sorrir demais, sentir intensamente: eis a minha forma de resistência. Há algo de profundamente simbólico na chuva. Ela embaça as superfícies, distorce os contornos, transforma o ordinário em pintura viva. O vidro molhado vira filtro, véu e lente sensível. Nada é totalmente nítido e, paradoxalmente, tudo é mais verdadeiro. Porque viver não é sobre clareza absoluta; é sobre sentir apesar da névoa. Meu lugar é onde posso ser sem reduzir a intensidade. Onde não p...









